Estudos científicos por vezes manipulados, médicos enganados 4 Setembro
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Um especialista português em Bioestatística vai hoje procurar demonstrar a médicos de vários países que os resultados dos estudos científicos podem ser manipulados e explicar de que forma é que os profissionais de saúde podem evitar ser enganados.António Gouveia, médico e professor de Bioestatísitca na Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa, participa sábado numa conferência dirigida a mais de 50 médicos internos de 20 países.
Para o especialista, a sua intervenção tem um carácter “didáctico” e pretende “chamar a atenção dos médicos de que utilizando métodos estatísticos que exploram a variabilidade dos dados e fenómenos de amostragem é possível fazer surgir resultados errados”.
“Com estatística pode-se mostrar tudo. Isto é rigorosamente verdade”, disse em declarações à Agência Lusa, acrescentando que “aos clínicos que não têm os necessários conhecimentos de estatística, é fácil apresentar o que parece evidência quando na realidade é gerado”.
Por isso, António Gouveia pretende explicar aos médicos como essas técnicas funcionam e o que é que têm que observar para concluir se os resultados são válidos e não se deixarem enganar.
Contudo, a este tipo de manipulação que conduz a resultados errados não se pode chamar fraude, porque os resultados não são inventados.
O que acontece é que o processo é conduzido de forma a concluir aquilo que se pretende.
É por isso, como refere o especialista, que as fraudes são mais facilmente detectadas do que este tipo de manipulação que utiliza técnicas muito subtis e pouco evidentes.
“Se num estudo em que 15 ensaios clínicos não mostram resultado nenhum e apenas um mostra, posso pegar apenas nesse e apresentar as conclusões, ocultando que fiz os outros”, exemplificou.
Durante a conferência, António Gouveia vai precisamente demonstrar como um medicamento totalmente ineficaz pode passar a ser considerado o melhor para o tratamento de uma patologia, com resultados comprovados cientificamente através de ensaios clínicos.
O especialista explicou ainda que se pegar numa substância e a comparar com uma outra de pouca eficácia ou com um placebo, obtém bons resultados, mas a verdade é que não a comparou com medicamentos altamente eficazes, porque desse modo não obteria os resultados pretendidos.
Segundo o médico, estes casos são tão correntes, que apenas as melhores revistas científicas seguem determinadas normas para evitar a publicação deste tipo de estudos.
O problema é que a grande maioria das publicações médicas e científicas não o fazem, lamentou.
Por detrás desta manipulação de resultados está sempre o dinheiro, afirmou.
Por um lado, há os laboratórios farmacêuticos com interesse em vender os seus medicamentos, por outro há os investigadores, que apresentando resultados têm mais probabilidade de receber financiamento, explicou.
A conferência de hoje é dirigida aos médicos que desde quinta- feira estão a participar na IX Escola Europeia de Medicina Interna, a primeira a realizar-se em Portugal.FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-8301165)


