Sociedade americana de oceanografia tem presidente que fala português 30 Julho
Comments Off
Carlos Duarte é o primeiro cientista a liderar a Sociedade Americana de Oceanografia e Limnologia (ASLO, sigla em inglês) sem trabalhar nos Estados Unidos. O primeiro nos 50 anos de vida do organismo, com 5000 sócios, 60 por cento dos quais norte-americanos.
Apesar de ter nascido em Lisboa, em 1960, o biólogo vive e trabalha em Espanha, no CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas). Ao PUBLICO.PT admitiu que, “se surgir alguma oportunidade interessante”, pode vir a colaborar com “alguma instituição portuguesa.” Mas está a pensar em passar a luso-espanhol.
Até 2010, este especialista em ecossistemas marinhos estará ao leme do ASLO. Traçou como prioridades a integração e progresso científico das minorias étnicas e culturais, tornar mais acessíveis as publicações da Sociedade e a aposta na internacionalização.
Uma das suas principais preocupações é a falta de cientistas nos oceanos. Tão remotos como o espaço, não recebem orçamentos de milhões, nem são explorados por tecnologias dignas de ficção. Concentram uns magros dez por cento dos esforços para conhecer a biodiversidade do planeta.
As profundidades marinhas, a mais de 200 metros, são só uma amostra do pouco que se conhece, disse Carlos Duarte. Entre 1987 e 2004 apenas 9,8 por cento da investigação publicada tinha algo a ver com biodiversidade marinha, constatavam Duarte e dois colegas num editorial da revista Science de 24 de Junho. A falta de informação partilha a culpa pelos actuais 0,1 por cento de áreas marinhas protegidas. Bem longe do objectivo de dez por cento definido pela Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica.
“É preciso reforçar recursos para a investigação em biodiversidade marinha, aumentar o número de investigadores e os recursos tecnológicos para explorar os oceanos, que podem ter a complexidade da exploração do espaço.” Gostava de ver os cientistas a trabalhar em rede, organizados “tanto a nível nacional como internacional e a partilhar recursos”.
Para Carlos Duarte, não restam dúvidas de que o ambiente marinho está a mudar, seja sob a forma de uma explosão da quantidade de medusas no Mediterrâneo, ou sob a forma de zonas mortas com dezenas de milhas, onde deixaram de existir condições para a vida de peixes e plantas.
“O oceano está a mudar no topo da cadeia trófica, que tem sido dizimado pela pesca, e na base, pressionado pelo aumento de nutrientes e poluentes e alterações climáticas.” A situação é “pior nas zonas costeiras, com a destruição de habitats como mangais, sapais e campos de algas.” O desaparecimento é duas a dez vezes mais rápido do que nas florestas tropicais. Mas os cientistas não têm capacidade para acompanhar estas mudanças nos oceanos. “É aqui que a falta de recursos é mais evidente.”
Carlos Duarte é um fiel defensor de novos modelos para os oceanos, porque a “transposição directa da conservação terrestre pode ter algum sucesso em áreas costeiras, mas não funciona no oceano aberto”, versão marinha do “wild West”, sem lei.
Propõe que se avance em duas frentes: “Modelos científicos mais eficientes e um quadro legislativo e de conservação internacional.” É ambicioso o suficiente para propor “uma convenção internacional para a protecção dos oceanos, assinada por todos os países do planeta”.
FONTE: Público


