D. Afonso Henriques: Investigadores “decepcionados” aguardam nova autorização Bartender 6 Julho

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Os investigadores portugueses e espanhóis impedidos hoje de abrir o túmulo de D.Afonso Henriques mostraram-se decepcionados com a decisão, mas esperam que os trabalhos científicos venham a ser autorizados em breve pelo Ministério da Cultura.

O projecto para estudar as ossadas e reconstituir o rosto em imagens tridimensionais do fundador da nacionalidade, sepultado na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, é liderado pela professora Eugénia Cunha, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Uma dezena de cientistas e técnicos, entre os quais o antropólogo forense Miguel Botella, da Universidade de Granada, Espanha, foram hoje impedidos de abrir o sarcófago pela direcção nacional do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), sendo assim desautorizada a direcção regional do instituto, que aprovou essa operação há duas semanas.

“Não imaginávamos que isto pudesse acontecer. Haverá que solucionar este problema”, disse à agência Lusa Miguel Botella, responsável por idêntico estudo do que se julga serem os restos mortais do navegador Cristóvão Colombo, sepultado em Sevilha. O académico de Granada parte na próxima semana para ao México, onde vai “investigar as marcas de canibalismo”, uma prática que seria comum entre povos autóctones antes da conquista destes territórios pelos descobridores espanhóis. “Há que ser optimista”, disse, admitindo que a proibição de aceder às ossadas de D.Afonso Henriques, hoje conhecida à hora de almoço, causou “muita decepção” na equipa envolvida na operação, que contava com o apoio da empresa Teixeira Duarte.

Eugénia Cunha, reiterando o sentimento de frustração dos investigadores, explicou que a construtora montou os equipamentos necessários à exumação das ossadas do Rei Fundador, abrindo o sarcófago de calcário visitado anualmente por milhares de turistas. Tendo terminado obras de beneficiação da Igreja de Santa Cruz, a empresa vai abandonar o templo de imediato, deixando os investigadores de poder contar com a sua ajuda quando lhes for dada uma eventual autorização pelo Ministério da Cultura ou pela direcção nacional do IPPAR.

“Pretende-se reconstituir o perfil biológico do primeiro rei de Portugal, a sua estrutura física, a sua estatura, a idade que tinha quando morreu, bem como tentar deslindar algumas patologias que o afligiram e que deixaram vestígios nos seus ossos”, afirmava Eugénia Cunha, numa nota divulgada quarta-feira pelo gabinete de imprensa da FCTUC. A datação do esqueleto, pelo método de radiocarbono, o perfil genético, a dieta do rei (através da análise química dos ossos) e a sua reconstrução facial são abrangidos pela investigação liderada pela cientista do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, em que também participam técnicos do Instituto Português de Conservação e Restauro (IPCR). O projecto inclui a realização de um documentário, mas a sua concretização estava condicionada às orientações dadas pelo IPCR, segundo uma carta enviada a Eugénia Cunha, no dia 23 de Junho, pelo director regional do IPPAR, José Maria Tadeu Henriques.

Em comunicado, a direcção nacional do IPPAR anunciou ao início da tarde que a abertura da sepultura de D.Afonso Henriques, prevista para as 17:30, foi cancelada por alegadamente não terem sido “cumpridos todos os procedimentos adequados e necessários”. O IPPAR proibiu a exumação dos restos mortais do monarca e revelou que irá “diligenciar no sentido de apurar os antecedentes relativos a todos este processo”. A autorização para abrir o túmulo consta da carta – a que a agência Lusa teve hoje acesso.

“Informamos que se autoriza a abertura do referido túmulo”, lê- se no documento, onde José Maria Tadeu Henriques exigia, no entanto, que a responsável pela investigação observasse algumas condições, “para além das restrições impostas pela Diocese de Coimbra” da Igreja Católica. A Diocese, que tutela a Igreja de Santa Cruz, erguida nos primórdios da nacionalidade com o patrocínio do Rei Fundador, tinha autorizado a exumação dos restos mortais, garantiu à agência Lusa uma fonte do gabinete de imprensa da FCTUC. O projecto da cientista Eugénia Cunha visa “reconstituir o perfil biológico de D.Afonso Henriques”, confirma a nota hoje divulgada pela direcção nacional do IPPAR.

A fonte da FCTUC, por seu lado, disse que o presidente do conselho directivo desta faculdade, João Gabriel Silva, não está contactável, em virtude de se encontrar no estrangeiro. Esclareceu ainda que a proibição da abertura da tumba do primeiro rei de Portugal foi comunicada hoje, por escrito, ao reitor da Universidade de Coimbra, Seabra Santos, e que os serviços da reitoria, por sua vez, a transmitiram de imediato à equipa que estava na Igreja de Santa Cruz.

Os especialistas espanhóis trouxeram consigo um aparelho que permitiria “reconstituir o rosto de D.Afonso Henriques a três dimensões”, adiantou a mesma fonte do gabinete de imprensa da FCTUC. Há dois anos, a Assembleia da República aprovou a concessão à Igreja de Santa Cruz do estatuto de Panteão Nacional, até então exclusivo do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Na Igreja de Santa Cruz, além de D.Afonso Henriques, que recebeu o cognome de “O Conquistador”, pela sua acção na Reconquista Cristã e na expulsão dos povos maometanos da Península Ibérica, no século XII, repousam a sua mulher, D. Mafalda, e o segundo rei de Portugal, D.Sancho I.

FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-8149653)

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