Cientista português identifica gene que reverte células adultas em estaminais 15 Junho
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O gene que protagonizou uma experiência científica do biólogo português José Silva, do Instituto de Investigação de Células Estaminais, em Edimburgo, na Escócia, não podia ter um nome mais apropriado. Chama-se Nanog, que quer dizer, em gaélico, “terra dos sempre jovens”. José Silva mostrou como este gene pode levar células adultas — que já se tornaram células da pele, por exemplo — a uma espécie de regresso ao passado celular, transformando-as em células estaminais embrionárias.
Ao contrário das células adultas, que já se diferenciaram, as estaminais dos embriões têm a capacidade de originar todos os tipos de células de um organismo. Por isso, os investigadores consideram que a medicina regenerativa do futuro, com órgãos e tecidos mesmo à medida de cada doente, passa incontornavelmente pelas células estaminais. Estão a aprender a manipulá-las, para as tornar em células do cérebro ou do pâncreas, por exemplo, para tratar a doença de Parkinson ou a diabetes. O problema, até agora, é que para obter células estaminais embrionárias era preciso criar e, depois destruir, embriões humanos com cinco a seis dias de desenvolvimento. Nessa altura, o embrião é uma bolinha com 150 a 200 células, que é preciso rebentar para as poder extrair.
Não só essa destruição tem sido uma forte barreira ética a este tipo de investigação, como ainda é necessário conjugar a criação dos embriões com a clonagem. Criar embriões, por si só, não resolveria o problema da rejeição das células pelo sistema imunitário do doente, caso se pretendesse usá-las para fins terapêuticos. É necessário torná-las compatíveis com o doente. Ao fazer-se um clone do doente evita-se a rejeição, mas esta tem sido outra barreira ética de peso.
O trabalho de José Silva, de 31 anos, é um passo importante para contornar os problemas éticos, pois conseguiu obter células estaminais embrionárias sem recurso à clonagem, nem à criação e destruição de embriões. Levou células estaminais adultas do cérebro e células já perfeitamente diferenciadas da pele e do timo — de ratinhos — a converterem-se em estaminais embrionárias.
Por outras palavras, fez as células adultas regressaram a um estado em que voltaram a ser as progenitoras de todas as outras células.
Para tal, procedeu à fusão de células estaminais embrionárias com as células do cérebro, da pele e do timo, juntando os seus núcleos. Conforme os tipos de células, assim os diferentes genes estão “ligados” e “desligados” — por exemplo, o Nanog só está activo nas células estaminais embrionárias.
“Nesta fusão, a informação genética das células diferenciadas é convertida em informação genética igual às das células estaminais embrionárias. O que descobriu foi que o gene Nanog é o factor-chave para essa conversão.” É isto que José Silva demonstra hoje num artigo na edição on-line da revista Nature.
O Nanog já era conhecido desde 2003, quando foi descoberto pelo segundo autor do artigo na Nature, Ian Chambers, do mesmo instituto de José Silva. Mas agora é a primeira vez se identifica um gene específico envolvido na reprogramação das células.
“Este é o primeiro grande passo para se conseguir fazer a reconversão das células adultas em células estaminais embrionárias, que são as que têm as propriedades terapêuticas únicas”, diz José Silva. “Mas, apesar de termos dado um grande passo científico, não estamos ainda onde queremos, que é converter qualquer célula adulta em célula estaminal embrionária.” Ou seja, sem recurso a fusões e fazendo a conversão de forma directa. Manipulando apenas o Nanog, isso não é possível, por isso falta identificar outros genes que deverão interagir com o gene da “terra dos sempre jovens” e estar envolvidos no regresso ao passado celular. “Provavelmente, vão ser identificados muito em breve”, prevê José Silva.
FONTE: Público


