Português clonou rato com método pioneiro 13 Junho
Comments Off
Um português clonou com sucesso um rato de laboratório, recorrendo a uma técnica inovadora nesta área que já motivou o interesse de vários países em aplicá-la a roedores e a outros animais de maior porte.
O feito, que mereceu honras de publicação na prestigiada revista científica “Cloning and Stem Cells”, registou-se em 2004 e resultou no nascimento de ” Figo”, um rato clonado que sobreviveu nove meses.
O autor da experiência foi Ricardo Ribas, licenciado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto, e graduado em Biologia Básica e Aplicada. Ricardo Ribas foi supervisionado neste trabalho por Mário de Sousa, perito em genética da reprodução, e Ana Colette, especialista em clínica veterinária, ambos do ICBAS.
Para este projecto, que deu os primeiros passos em 2001-2002, Mário de Sousa aliciou um dos maiores especialistas na área da clonagem, o escocês Ian Wilmut, criador da famosa ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir da transferência nuclear de uma célula adulta. Mário de Sousa contou à Lusa que o escocês aceitou o desafio e acolheu com grande entusiasmo Ricardo Ribas. O estudante não se ficou pela Escócia, já que o objectivo deste projecto era criar uma nova técnica de clonagem que exigisse menos tarefas de manipulação e, por conseguinte, reduzisse as tentativas até ao sucesso, o qual se traduz no nascimento de um animal igual ao dador (de células).
Ricardo Ribas aprendeu a técnica na Nova Zelândia e regressou depois à Escócia para aplicá-la. Para a criação deste clone foram utilizadas as células dos ovários (ovó citos) do rato que se pretendeu clonar, as quais traziam a informação genética com que “Figo” nasceu. Os ovócitos foram sujeitos à remoção da zona pellucida (que protege o o vócito e o embrião em fases iniciais de desenvolvimento), com vista a facilitar a manipulação. Este método de clonagem revelou-se muito mais eficaz do que os utilizados até então, pois conseguiu o nascimento de um animal clonado após a transferência de 33 embriões, menos do que os necessários em anteriores métodos.
O ratinho “Figo” – nome com que o clone foi baptizado, por influências do campeonato europeu de futebol, que decorria quando foi clonado – nasceu saudável, embora obeso (como todos os animais clonados), o que animou os cientistas, principalmente porque a Dolly, à semelhança de outros animais entretanto clonados, nasceu com anomalias genénitas. Fotografado como uma estrela – não do relvado, mas do laboratório – “Figo” durou nove meses. Foi a “menina dos olhos” de Ricardo Ribas que, apesar de ser um homem da ciência, se afeiçoou ao roedor. “Acabamos por criar laços de afectividade, pois não deixa de ser um animal criado por nós”, contou Ricardo Ribas à Lusa.
Apesar do sucesso de “Figo”, alguns mistérios relacionados com a clonagem permanecem por desvendar. Segundo Mário de Sousa, “os animais clonados apresentam uma disfunção do sistema imunológico”, para a qual “ainda não existe resposta”. Inicialmente, e perante a artrite de que sofria a ovelha Dolly, os cientistas julgavam que estes animais clonados eram vítimas de envelhecimento precoce e daí apresentarem doenças que normalmente atacam animais mais velhos. Contudo, as experiências seguintes demonstraram que estes animais têm deficiências a nível do sistema imunológico, o que, para Mário de Sousa, é suficiente para a técnica ainda não ser aplicada em humanos. “Primeiro, temos de entender estas deficiências da clonagem e só depois de as entendermos e vencermos é que poderemos ir mais longe”, disse.
O rato “Figo” foi eutanasiado em Fevereiro de 2005, após nove meses de uma saudável existência, acompanhada de perto por Ian Wilmut, que sempre se interessou por este projecto. A decisão de entanasiar “Figo” deveu-se a uma hemorragia que atingiu o ouvido do rato, que apresentava igualmente uma conjuntivite no olho. Segundo Ricardo Ribas, estes problemas são comuns a animais desta raça e a morte do ratinho não se deveu, por isso, à técnica da clonagem.
A morte do rato “Figo” não apagou o sucesso da experiência, que mereceu já a atenção de cientistas de vários países, interessados na sua aplicação em roedores e outros animais de maior porte. No caso dos roedores, explicou Ricardo Ribas, o interesse deve-se ao fa cto da gestação destes animais ser muito curta (21 dias), o que permite acompanhar rapidamente os resultados.
Mas o grande objectivo desta técnica é aperfeiçoar a clonagem com vista à sua utilização em animais maiores, nomeadamente gado, para a produção de leite com antibióticos, por exemplo.
FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-8074064)


