Irene Pimentel faz retrato da presença judia em Portugal entre 1939-45 Bartender 24 Maio

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Os judeus que se refugiaram em Portugal, durante a II Grande Guerra, viveram em duras condições, apesar da hospitalidade dos portugueses, afirma Irene Flunser Pimentel, que apresenta quarta-feira, em Lisboa, um livro sobre a presença judaica no país.

O livro será apresentado por Esther Mucznik, da Comunidade Judaica, e pelo historiador José Pacheco Pereira, na Pastelaria Suíça, no Rossio, “um dos pontos de encontro dos judeus na época”, explicou à Lusa a autora.

Segundo Irene Pimentel, a forma hospitaleira como os portugueses acolheram os refugiados judeus, “desobedecendo às ordens de Oliveira Salazar”, constitui uma ironia histórica, na medida em que “o governante não falava do assunto, mas fê-lo diplomaticamente notar, terminada a guerra aos Aliados”.

O livro “Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial” é a primeira obra da colecção “História”, da editora Esfera dos Livros, escrita por um autor português.

Irene Flunser Pimentel é mestre em História Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa.

Segundo a historiadora, entre 1939 e 1945 passaram por Portugal, “um país a viver em autarcia, com uma ideologia nacionalista”, entre 50.000 e 100.000 judeus que “esperavam para atravessar o Atlântico” e assim fugir ao holocausto nazi.

Em Portugal, os refugiados judeus “eram tratados de forma igual, sem qualquer anti-semitismo, mas indesejáveis aos olhos de Salazar”.

Residiam na Costa do Estoril, Caldas da Rainha, Porto, Lisboa, Coimbra e Figueira da Foz, essencialmente, “não havendo qualquer marginalização, e quanto muito curiosidade por parte dos portugueses”.

A sua presença era notória, frisou a investigadora, “tanto mais se tivermos em conta que Lisboa não ultrapassava os 400.000 habitantes”.

Dessa vaga de judeus, “de que em Portugal nem se fazia bem a ideia quem eram, para além de pessoas com hábitos diferentes, ficaram a residir e a viver menos de 10.000″.

“Salazar não os queria cá, nem os autorizava a trabalhar, nem lhes dava qualquer apoio, apenas aceitava que organizações humanitárias judaicas trabalhassem no terreno”, disse a historiadora.

Irene Pimentel levou seis meses a escrever este livro que resulta “de anos de investigação”, onde incluiu testemunhos orais de judeus e documentos oficiais, nomeadamente dos arquivos Salazar e do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Outro arquivo consultado foi o da extinta polícia política PIDE/DGS, mas “para este período de 1939-1945, há pouca documentação e não se conhece o seu paradeiro, colocando-se até a hipótese de a própria polícia política o ter destruído”.

A autora utiliza ainda documentação inédita, nomeadamente fotografias que publica, “e uma vasta bibliografia”.

“Este é um livro de síntese sobre a presença judia em Portugal naquela época” que a historiografia nacional “nunca prestou grande atenção por vicissitu des várias”, acentuou.

Ao longo de cerca de 400 páginas Irene Flunser Pimentel traça um retrato humano da passagem destes refugiados por Portugal, “um país pobre, conservador , orgulhosamente só, a viver numa ditadura rígida sob o comando de António de Oliveira Salazar que se vê a braços com uma invasão inevitável, mas indesejada”.

Todavia, “Portugal não sai deste livro mal colocado”, disse à Lusa a historiadora, “havendo contudo essa ironia entre o ‘não’ de Salazar e a forma huma nitária como os portugueses receberam os judeus e depois como Salazar se aproveitou desse facto na cena internacional, acabada a guerra”.

FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-8015355)

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