Estudo que revela que dor crónica provoca alterações no cérebro recebe prémio 26 Janeiro
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Um estudo português que descobriu que a dor cró nica provoca uma alteração numa região do cérebro (tálamo) que leva à perpetuação da dor ganhou o primeiro Prémio Grünenthal Dor 2005, no valor de 7.500 euros.
O prémio, considerado o mais prestigiado galardão na área da dor, será entregue sexta-feira aos autores do trabalho de investigação “Envolvimento dos r eceptores GABAb do tálamo na dor crónica”: José Castro Lopes, Joana Ferreira Gomes, Catarina Soares Potes e Fani Moreira Neto, do Instituto de Histologia e Embr iologia da Faculdade de Medicina do Porto.
De acordo com José Castro Lopes, “sabe-se que a dor crónica provoca alterações no sistema nervoso e que pode levar a perpetuar a dor” e “sabe-se também que o tálamo é muito importante no controlo da dor”.
A partir daqui a questão que se pôs foi a de saber se “haveria alterações no tálamo provocadas pela dor crónica”, explicou.
Os investigadores verificaram que os receptores de um neurotransmissor que inibe a dor (denominado GABA), situados no tálamo, estavam alterados na dor crónica, podendo este “ser um dos mecanismos que levam a perpetuar a dor”.
O passo seguinte foi administrar em animais um fármaco analgésico que actua no Tálamo, nos receptores do GABA, disse o investigador, concluindo que des te modo conseguiram inibir a dor.
O segundo prémio distinguiu um trabalho que permitiu localizar onde se insere uma região do cérebro denominada DRT, na rede de neurónios do cérebro que controlam a percepção da dor.
Segundo Armando Almeida, responsável pelo estudo, “descobriu-se que uma área do cérebro chamada DRT controla a nossa própria percepção da dor, que nem sempre é proporcional à lesão”.
“Dependendo do estado emocional da pessoa, o cérebro pode permitir que o corpo sinta mais ou menos dor”, explicou, exemplificando: “se num safari, uma pessoa cair de um elefante e partir a perna sentirá seguramente muitas dores, mas se lhe aparecer um leão pela frente, a dor vai desaparecer e a pessoa vai conseguir correr para tentar fugir”.
“Quando temos medo, a percepção da dor diminui, porque o cérebro inibe- a”, disse.
A amígdala tem neste caso um papel fundamental, na medida em que é resp onsável pela sensação do medo. Deste modo, controla ou inibe a dor.
O DRT desempenha o papel oposto: facilita a percepção da dor, afirmou A rmando Almeida, salientando a importância do DRT, já que “o aumentar da dor também é importante para a sobrevivência, é um instrumento para o cérebro se defender e proteger o organismo”.
A partir destes dados, e tentando perceber “qual a rede de conexões cer ebrais que o DRT tem”, Armando Almeida concluiu que está interligado com muitas das áreas conhecidas de controlo da dor, ou seja, “faz parte de uma rede no cérebro que controla a dor ou a percepção da dor”.
O investigador adiantou ainda que o DRT poderá ter um papel determinant e na dor crónica, caso em que se verifica um “exacerbamento da dor”.
A menção honrosa foi atribuída ao trabalho “Escolhas emocionais de alto risco sob dor crónica. Alterações induzidas pela dor nos mecanismos corticais o rbifrontais de tomada de decisão”, da autoria de Miguel Pais-Vieira e Vasco Galh ardo.
Segundo o estudo, os mecanismos neurobiológicos envolvidos na tomada de decisões com forte carga emocional são controlados por zonas específicas do cér ebro (como a amígdala e o córtex orbifrontal).
A lesão dessas áreas leva a comportamentos de má decisão, em que as consequências não são tidas em conta.
Trabalhos recentes revelaram que os pacientes com dor crónica têm padrões de decisão semelhantes aos das pessoas com aquele tipo de lesões.
Neste trabalho, os investigadores estudaram a decisão emocional em animais, baseada na avaliação das respostas que davam a diferentes recompensas.
O estudo revelou que os animais com lesões do córtex orbifrontal e com dor crónica escolhiam sistematicamente a recompensa de ganho mais imediato, mas que implicava maior risco, ao passo que os outros animais escolhiam a recompensa de ganho menos imediato, mas de menor risco.
O estudo revelou ainda que os animais com dor crónica e com as lesões tendiam a ser mais persistentes após receberem uma recompensa grande.
Estes resultados estão de acordo com os que se observam em humanos em tarefas semelhantes, o que permitirá estudar as variações emocionais induzidas pela dor crónica.
O Prémio Grünenthal Dor, atribuído anualmente pela Fundação Grünenthal, distingue os melhores trabalhos portugueses de investigação na área da dor.
Os prémios serão entregues pelo presidente da fundação, Walter Oswald, no auditório Cardeal Medeiros da Universidade Católica durante a realização do 4 º Convénio da Associação para o Desenvolvimento da Terapia da Dor.
FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-7680113)


