Biologia procura novas técnicas de conservação de livros e documentos 18 Abril
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Investigadores da Universidade de Coimbra juntaram-se a uma empresa privada para desenvolver um estudo pioneiro de conservação de livros antigos, num projecto que culminará na criação de um Laboratório de Arte e Restauro. O projecto, que começará em Julho, para decorrer durante dois anos, envolve cientistas do Departamento de Botânica da Universidade, que se propõem identificar e controlar os fungos infectantes de documentos bibliográficos e elaborar, no final, um manual de restauro.
Ao grupo de investigação associou-se a empresa de restauro Invicta Livros, do Porto, e ainda a Biblioteca Geral e o Arquivo da Universidade de Coimbra, ambos com um extenso e valioso espólio bibliográfico e documental.A peça prioritária de investigação e tratamento será o Livro Verde da Universidade de Coimbra, um cartulário do século XV, obra única no mundo, que se encontra depositada no Arquivo e a carecer de intervenção de restauro.
Há uns meses atrás investigadores do mesmo departamento da Universidade iniciaram um outro projecto pioneiro, o estudo biológico das madeiras das peças artísticas do Museu Grão Vasco, de Viseu, e no futuro pretendem lançar-se no estudo dos tecidos utilizados na arte, as telas e vestuários.
“Queremos começar a estruturar gradualmente um laboratório de arte e restauro, partindo do trabalho que aqui desenvolvemos”, disse à agência Lusa a professora catedrática Helena Freitas, directora do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra. O que se pretende – segundo a responsável – é fazer uma associação do conhecimento científico e colaborar com o mundo da arte, num domínio com “lacunas enormes”.
Além dos biólogos e dos profissionais ligados ao restauro e história da arte, pretende-se associar no futuro investigadores das áreas da Física e Química, que Helena Freitas diz poderem dar “um contributo inestimável para a preservação das obras de arte”. Com este projecto a iniciar em Julho pretende-se fazer o levantamento, identificação e controlo de fungos infectantes de diversos documentos bibliográficos em diferentes tipos de suporte (pergaminho, couro, papel de linho, de algodão e de pasta) e em diferentes estados de conservação, “nomeadamente no que concerne aos diferentes estados de acidificação do papel”.
A identificação dos fungos será feita com recurso a técnicas de biologia molecular, baseadas no estudo do DNA genómico das espécies, completada com técnicas de microscopia, em amostras de material biológico ou em amostras de fragmentos de pele ou papel contaminados. Essa identificação permitirá ainda relacionar diferentes grupos de infecção com diferentes suportes de documentos e ainda ensaiar técnicas de tratamento a baixo custo, seguras para o homem e documentos, através de radiações gama, microondas, câmara anaeróbica ou lavagem com hipoclorito de sódio, explicam os investigadores.
António Manuel Portugal, investigador do Departamento de Botânica e responsável pela coordenação deste projecto, revelou à agência Lusa que ao lançá-lo tiveram a intenção de “criar algo inovador em Portugal e que pudesse ser importante para a conservação dos documentos”. Na sua opinião, encontrar técnicas alternativas e eficazes é cada vez mais urgente, dada a susceptibilidade dos materiais e quando se começam a abandonar as fumigações por produtos químicos fungicidas, que provocam danos às pessoas e livros.
José Mário Santos, que participa no projecto em representação da empresa Invicta Livro, atribui à investigação a maior importância e considera que responde a algo “muito mal estudado a nível mundial”. “Um dos grandes problemas é o ataque dos fungos. Saber qual é a sua natureza ajuda a encontrar o meio de o combater”, declarou, frisando que os métodos hoje utilizados são eficazes em certos casos, mas noutros casos fracassam.
Para os promotores, este projecto interdisciplinar assume contornos inovadores ao articular campos de investigação em ciências biológicas com objectivos concretos de preservação de obras de arte e documentos. Além de criar habilitar um grupo de investigadores, com esta investigação poderá constituir-se uma base de aplicação para outros materiais e outras obras da arte, como sejam as esculturas, telas, quadros, frescos, ou mesmo edifícios, acrescentam.
FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-6920377)


