Células do Cordão Umbilical São Negócio Lucrativo 6 Janeiro

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Pais ansiosos estão a pagar mil euros pela conservação do sangue do cordão umbilical dos filhos, mas cuja aplicação ainda não foi cientificamente demonstrada. “Uma oportunidade única que pode proteger o seu filho” ou “salve a vida do seu filho” são as frases com que duas empresas apresentam os seus serviços em Portugal.


Mas, perante o crescimento deste tipo de serviços, o Grupo Europeu de Ética alertou em 2004 para o “engano” que é congelar células do cordão umbilical, já que é raríssimo o seu uso no tratamento de doenças. Este órgão consultivo da Comissão Europeia especifica que “a probabilidade de se precisar de um transplante autólogo [de tecidos provenientes do próprio dador] está estimada em um em cada 20 mil casos, nos primeiros 20 anos de vida.”



Além disso, não está demonstrado que as células possam ser armazenadas mais de 15 anos, nem que sejam úteis para tratar doenças no futuro. Apesar da intensa investigação sobre as células estaminais, sobretudo sobre a sua aplicação em doenças como Parkinson ou diabetes, “não foi ainda provada a sua utilidade.” Mas isso não impede que os médicos, como Daniel Pereira da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, sejam cada vez mais confrontados com dúvidas de mulheres sobre se devem recorrer ao serviço. É uma pergunta difícil de responder a grávidas ansiosas. Daniel Pereira da Silva alerta, contudo, que se trata de “um investimento, com custos económicos significativos, que deve ser visto como uma potencialidade e não uma realidade.”


Joaquim Silva Neves, ginecologista e obstetra do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, é cada vez mais confrontado com o pedido de grávidas para a recolha do sangue do cordão umbilical após o parto. Não levanta objecções, mas alerta para as poucas hipóteses de sobrevivência das células estaminais que, quando se corta o cordão, tendem a migrar para o bebé. “Podemos recolher sangue e não estar lá nenhuma.” O médico duvida da aplicação das células e se alguma vez virão a ser utilizadas pelos dadores /bebés). “Ainda não há aplicação prática deste material e nem sequer prova de que sobrevivem a 15 anos de criopreservação.”


Mas a Crioestaminal, a primeira empresa a fornecer em Portugal o serviço de conservação de sangue de cordão umbilical, e a Bebevida, que brevemente entrará em funcionamento, apresentam-se como capazes de proporcionar a salvação de doenças futuras através das células estaminais do cordão. As duas empresas disponibilizam o “kit” de recolha, no qual é colocado o sangue após o parto, e o seu transporte para laboratórios em Bruxelas (Crioestaminal) e Londres (Bebevida).


A Bebevida propõe aos pais a “possibilidade de salvar a sua vida e a do seu filho”. Disponibiliza a conservação de células do bebé por 25 anos com a finalidade da sua utilização “na terapia de diversas doenças” e cobra 1465 euros.


A Crioestaminal cobra 985 euros pelo serviço de isolamento e criopreservação das células estaminais por 20 anos. Luís Gomes adiantou que, desde Julho de 2004, cerca de 3000 pais recorreram aos serviços da empresa mas, até ao momento, nenhum necessitou das células.


Os pais acreditam que estão a fazer uma espécie de seguro para o bebé: “A recolha poderá constituir para o dador um seguro, permitindo fazer terapia com células próprias em determinadas doenças, sem necessidade de se submeter a listas de espera para a doação de tecidos histocompatíveis”, propõe a Crioestaminal.


Se as células forem necessárias, a empresa responsabiliza-se pelo seu retorno, mas mais nada. Caberá aos médicos usarem-nas para tratar as doenças, embora Luís Gomes reconheça que, nos hospitais portugueses, ainda não se praticam técnicas de reconstituição de tecidos ou órgãos com células estaminais. O presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular, Rui Reis, considera que a congelação de células do bebé “pode ser muito interessante”, mas ainda não existe forma de as aplicar em terapias.


Rui Nunes, presidente da Entidade Reguladora da Saúde, garantiu que estará atento ao desempenho das destas empresas, para assegurar que os pais são informados dos reais benefícios deste serviço. Do ponto de vista científico, “não é muito claro o benefício da recolha de sangue do cordão”, afirma Rui Nunes, que dirige o serviço de bioética da Faculdade de Medicina do Porto. Mas considera que é e uma técnica legítima, desde que os pais saibam porque autorizam a recolha.


FONTE: Público / Agência Lusa

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