Lesmas do mar podem ser úteis na luta contra o cancro 23 Dezembro

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O uso de substâncias químicas produzidas por lesmas marinhas no fabrico de medicamentos pode ser a grande esperança na luta contra o cancro, de acordo com um projecto inédito a ser desenvolvido no Algarve.

As lesmas-do-mar, pequenos moluscos coloridos aparentados com os búzios e as lapas e que produzem substâncias químicas com potencial farmacológico, podem estar prestes a apontar aos investigadores científicos o caminho de novos anti-cancerígenos, anti-inflamatórios e analgésicos. O estudo do Instituto Português de Malacologia (IPM), que se dedica ao estudo dos moluscos, visa aprofundar o conhecimento sobre o ciclo de vida destes organismos marinhos e desenvolver técnicas de cultivo.

O projecto está a ser coordenado pelo biólogo Gonçalo Calado, presidente do IPM, cuja sede está instalada no Zoomarine, em Albufeira, Algarve. O projecto de aquacultura de lesmas marinhas, que valeu a Gonçalo Calado o Prémio Milénio Sagres/Expresso 2002, arrancou em Março deste ano e tinha duração prevista de um ano, mas o seu financiamento foi prolongado pelo menos até Setembro do próximo ano. Apesar de ainda não haver no mercado nenhum medicamento derivado de substâncias retiradas de lesmas do mar, existem outros organismos marinhos, como os corais e as esponjas, que têm dado um importante contributo à investigação científica.

Um dos mais importantes medicamentos utilizados no tratamento da SIDA – o AZT (zidovudina) -, foi isolado a partir de uma esponja das Caraíbas e o analgésico mais forte do mundo, 50 vezes mais forte que a morfina, foi retirado de uma espécie de caracol. “Nós vamos aos animais roubar a ideia que em milhões de anos vingou”, disse à Lusa o coordenador do projecto, acrescentando que ainda há muito poucas substâncias retiradas de lesmas do mar e que, até agora, a forma de vida destes organismos era praticamente uma incógnita. As cores vivas que caracterizam algumas espécies fazem parte da sua estratégia de defesa, que evoluiu como alternativa à ausência de concha no estado adulto, de que beneficiam outros moluscos como o búzio ou a lapa. Associadas às substâncias químicas que têm impregnadas no corpo, essas cores funcionam como forma de afastar os predadores. “Trata-se de retirar uma lição de humildade da natureza e perceber que não é num laboratório que, a partir do nada, vamos criar uma molécula com a mesma força do que uma que durante 150 milhões de anos evoluiu”, concretizou Gonçalo Calado.

Depois de recolhidas em mergulhos ao largo da Arrábida e do Algarve, as lesmas do mar são levadas para câmaras refrigeradas onde é reproduzido o seu habitat natural e alimentadas até porem ovos, cujo destino será o laboratório. Os investigadores acompanham depois todo o desenvolvimento embrionário dos ovos com o objectivo de fechar ciclos de vida, para que essas lesmas, depois de adultas, possam pôr ovos e gerar mais animais. Contudo, segundo explicou à Agência Lusa Rita Coelho, técnica envolvida no projecto, na maior parte das espécies ainda não foi possível encerrar ciclos de vida, nem tão pouco foi fornecida matéria à indústria farmacêutica.

Por serem animais pouco abundantes na natureza, os cientistas têm que recorrer a técnicas de cultivo em cativeiro afim de produzir as quantidades consideráveis necessárias para a sintetização das moléculas. Segundo Gonçalo Calado, já houve casos em que foram necessários 213 quilos de matéria fresca para tirar 0,13 miligramas de substância. No início do ano que vem, o biólogo espera começar já a desenvolver técnicas de cultivo capazes de assegurar lesmas do mar em quantidade suficiente para serem analisadas quimicamente, sublinhando que já há laboratórios interessados no método.

Quanto à possibilidade de vir a ser patenteado um produto farmacológico derivado de lesmas do mar, Gonçalo Calado afirma que, “apesar de ser sempre uma esperança”, não é essa a principal finalidade do estudo. “Ficaríamos obviamente muito contentes se conseguíssemos contribuir para uma nova patente, mas esse não é o nosso objectivo”, disse, sublinhando que a missão do projecto é, sobretudo, “conhecer mais sobre estes fascinantes organismos e lutar pela sua conservação”.

FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-6603678)

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