Exposição Mostra como Os Ossos de Animais Podem Ajudar a Contar a História dos Homens 21 Dezembro

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Mesmo depois de mortos há milhares de anos, os animais podem dizer através dos ossos muitas coisas sérias sobre a relação com o próprio homem ou os ecossistemas. Também se prestam a curiosidades mais ligeiras, do género: se o esqueleto de uma cegonha-branca pesasse o mesmo que o de uma ovelha, com os seus 2,563 quilos, que tamanho teria ela para manter a relação entre o peso dos ossos e a altura? Em vez de 90 centímetros, mediria 8,4 metros, o que é mais do que um prédio de dois andares. E se uma ovelha pesasse o mesmo que uma cegonha, só com 275 gramas, seria minúscula. Em vez de 70 centímetros, não passaria dos 7,5 centímetros, a altura de uma chávena de chá. É um pouco disto tudo que se conta na exposição “Ossos da Arqueologia”, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, aberta até Fevereiro.

A exposição foi concebida por três elementos do Instituto Português de Arqueologia (IPA): a espanhola Marta Moreno e o português Carlos Pimenta, ambos investigadores, e o fotógrafo José Paulo Ruas. Já tinha estado este ano no Espaço Monsanto, uma área para exposições temporárias no Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa.

Foi aliás um técnico deste parque que espicaçou os investigadores a deitarem mãos a esta exposição, já que trabalham com ossos de animais: no Laboratório de Arqueozoologia do Centro de Investigação em Paleoecologia Humana e Arqueociências, que pertence ao IPA, coleccionam milhares de ossos, de centenas de espécies, numa biblioteca de ossos aberta a todos os cientistas. Ou osteoteca, por outras palavras. Com estes ossos, de animais actuais, a comunidade científica pode identificar os restos ósseos descobertos nas escavações arqueológicas.

Para isso, os membros do Laboratório de Arqueozoologia, criado em Janeiro de 2000, procuram junto de instituições, desde o Parque Nacional da Peneda-Gerês até ao Jardim Zoológico de Lisboa, entre tantas, animais que morreram. Já no laboratório, cozem-nos, descarnam-nos e preparam os ossos cuidadosamente, que depois guardam em caixas e servem de referência. O Parque Florestal de Monsanto foi um dos fornecedores de cadáveres.

“É uma exposição didáctica orientada sobretudo para as escolas”, diz Carlos Pimenta. “Tradicionalmente relegados para segundo plano ou muitas vezes esquecidos, os ossos constituem uma fonte de informação preciosa para conhecimento do passado e das relações entre o animal, a paisagem e o homem”, lê-se à entrada da exposição. O visitante entra no ambiente de uma escavação arqueológica. “Para conhecer o passado, os arqueólogos têm de escavar degrau a degrau as escadas do tempo. As várias camadas de terra representam momentos e cenários diferentes”, lê-se num “poster”. Ao longo dos diferentes níveis de solo, espalham-se pás, pincéis, uma peneira, baldes, fita métrica, colherins, entre outros objectos próprios de uma escavação. “Isto é cavar de forma organizada”, diz Carlos Pimenta. Daí que a área seja dividida por quadrados de um metro de lado, a que está associado um caderno de campo onde se registam múltiplas informações, como o tipo de objectos encontrados (ossos, cerâmica ou pedra), o posicionamento ou a orientação. É que para descobrir vestígios do passado é preciso destruir o local onde se encontram, por isso há que registar tudo.

Noutro módulo, há materiais recuperados de uma escavação real, ao lado de ossos da osteoteca, colados em “posters”: a coluna vertebral da cobra-rateira, o maxilar da cobra-de-escada ou o esqueleto da águia-de-asa-redonda. Colaram-se também ossos das asas e das patas de várias aves, para mostrar a sua enorme diversidade. Vão do flamingo ao frágil pintassilgo. Mostra-se ainda como se movimentam os mamíferos, desde os que têm os pés sobre o chão até aos que andam em bicos-de-pés, nadam ou voam. As aves e os mamíferos foram os grupos de vertebrados mais explorados pelo homem, para carne, peles, leite, estrume, ovos, penas ou força de trabalho. “Queres aprender a identificar alguns dos seus ossos”, desafia a exposição. E, além de mostrar como são tão diferentes por dentro os ossos de uma cegonha e uma ovelha, convida-se a tomar-lhes o peso.

Os arqueólogos poderão retirar muitas informações dos ossos, por exemplo através de marcas que tenham, que contam a história daquele animal, da sua espécie, do ambiente onde vivia e dos comportamentos associados à relação do homem com os animais. Foram cortados, queimados e roídos pelo homem, mordidos por outros animais ou apresentam sinais de doença? São de animais jovens, adultos ou velhos? De fêmeas ou machos? “Para a idade é fundamental ver os dentes e os desgastes. Animais mais velhos têm os dentes mais desgastados”, diz Marta Moreno. “Tentamos fazer a história dos ossos”, completa Carlos Pimenta.

FONTE: Público

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