Gafanhotos de Sagres são da espécie que chegou às Canárias – cientista 1 Dezembro

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As nuvens de gafanhotos vermelhos que desde domingo têm invadido o oeste do Algarve serão da mesma espécie dos que nos últimos dias aportaram às ilhas Canárias e Cabo Verde, e acabarão por morrer, disse hoje à Lusa um especialista. De acordo com Artur Serrano, da Faculdade de Ciências de Lisboa, tudo indica tratar-se da espécie “schistocerca gregaria”, com origem na África sub-sahariana, e uma capacidade de voo que, em certas condições, pode atingir milhares de quilómetros sem necessidade de “escala”.

Desde domingo que milhares de gafanhotos estão a invadir praias da zona de Sagres e Vila do Bispo, entre as quais Ingrina, Tonel, Mareta, Barranco e Zavial.



“Trata-se de uma espécie com um sistema de equilíbrio populacional estabilizado, mas que em certas alturas, devido à falta de alimento, empreende voos de milhares de quilómetros”, disse aquele especialista em insectos. Nessas alturas, explicou, os animais alteram o volume do seu corpo e a sua massa muscular cresce, à custa de gordura acumulada, que consomem muito gradualmente e lhes permite empreender o voo em massa. Nesse voo tiram partido das correntes de convecção, isto é, das correntes de ar quente que sopram na direcção do Atlântico e os arrastam, fazendo-os subir muito acima do nível da água.


O cientista não afasta mesmo a hipótese de estes insectos terem partido do interior do Continente africano, a vários milhares de quilómetros da costa, continuando a derivação para norte/noroeste, até às Canárias – Lanzarote foi fustigada por milhões de animais -, Cabo Verde e sul de Portugal. “Perante esses ventos quentes, as ilhas, montanhas e o litoral actuam como autênticos pontos de sucção, pois criam-se ali correntes de descida que permitem que os insectos caiam em terra”, disse.


O professor da Faculdade de Ciências de Lisboa sustenta que “a esmagadora maioria, senão todos”, dos que aportaram ao barlavento algarvio acabarão por morrer, devido às chuvas e ao frio que se faz sentir nesta altura do ano. “Tiveram azar na época do ano, porque se tivessem chegado na Primavera alguns deles podiam ter sobrevivido e proliferado”, disse, observando todavia que uma minoria residual de espécimes poderá eventualmente entrar em letargia (uma espécie de hibernação) em locais abrigados, “ressuscitando” na Primavera.


Observou ainda que as chuvas torrenciais que nas últimas 24 horas têm caído no barlavento terão dizimado boa parte dos insectos imigrantes. “Se tivessem chegado em maior número e noutra altura, poderiam pôr em risco as plantações e sementeiras de cereais”, adiantou.


O fenómeno não é novo no sul de Portugal, mas é considerado raro, havendo registos de algumas migrações semelhantes nas décadas de 70 e 80 do século XX, no Alentejo, disse o cientista. Nas últimas décadas, as migrações de gafanhotos têm sido relativamente controladas, devido ao controlo populacional nas regiões de origem, levadas a cabo pelos Governos ou por organizações internacionais, muitas vezes recorrendo a pesticidas.


FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-6562447)

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