Cientistas Discutem Fusão Nuclear como Alternativa Aos Combustíveis Fósseis 5 Novembro
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Será que a energia resultante da fusão nuclear – a energia produzida pelo Sol – é uma alternativa viável para a crise energética que o mundo atravessa? Talvez, mas não já. Mais de 700 especialistas nacionais e internacionais estão reunidos em Vilamoura, na XX Conferência de Energia de Fusão da Agência Internacional de Energia Atómica, para debater, até sábado, a possibilidade de esta energia ser uma alternativa, a longo prazo, para a escassez dos combustíveis fósseis.
A energia de fusão nuclear, diferente da energia nuclear convencional, ou de fissão, é o “el dorado” das políticas energéticas. Sendo uma energia limpa e capaz de gerar grandes quantidades de energia, é vista como uma possível resolução para a escassez de recursos energéticos que o planeta enfrenta.
Carlos Varandas, director do Centro de Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, uma das entidades organizadoras da conferência que decorre em Vilamoura, alerta para o facto de se ter de pensar muito seriamente o problema dos recursos energéticos: “Precisamos de políticas energéticas, estragamos muita energia. É preciso ter consciência de que existe um problema grave de energia com os consequentes problemas ambientais e climáticos.”
O investigador frisa o facto de a fusão nuclear não estar apta ainda para responder a este problema actual. Pelo menos para já: “Precisamos de investir em energias alternativas: na biomassa, na energia eólica. São áreas que devemos acarinhar.” Mas, sobre a fusão nuclear, acrescenta: “Só vejo, no futuro, duas alternativas energéticas: em primeira linha, o hidrogénio e, em segunda linha, a energia de fusão.” Está previsto que em 2010 os investigadores já contem com a primeira central nuclear de fusão, o Reactor Internacional Termonuclear Experimental (ITER, na sigla inglesa). Mas os especialistas afirmam que só aqui a 50 anos as pessoas comuns desfrutarão dos benefícios desta energia nuclear limpa. Trata-se de um megaprojecto, para o qual ainda não foi escolhido o local, que ficará em França ou no Japão. Sobre essa decisão pesam enormes pressões, uma vez que tanto a construção como depois o funcionamento são grandes fontes de emprego, muito aliciantes para a economia do país onde ficar instalado o complexo.
“É natural que não se tome uma posição de um momento para o outro. E tudo depende muito da decisão dos Estados Unidos.” A Casa Branca apoiou a candidatura japonesa, e a imprensa internacional chegou a adiantar que esse apoio visava castigar os franceses por não terem apoiado a guerra no Iraque. O britânico Chris Smith, um dos mais reputados investigadores na área da fusão nuclear, apontou, na terça-feira, na reunião do Algarve, dois caminhos possíveis para chegar a uma central de energia de fusão pronta a consumir. Há um caminho conservador, que significa uma construção em série do reactor e depois da central eléctrica e que poderia demorar 80 anos. E há a hipótese de uma construção dos dois dispositivos em paralelo, que é defendida no Reino Unido, e que poderia encurtar esse prazo para 30 a 40 anos. “Vejo esta segunda hipótese mais perto com o actual Parlamento Europeu. Hoje estou mais crente”, comenta Carlos Varandas.
O ITER será uma cópia em tamanho aumentado de um “tokamak”, um dispositivo já acessível a muitas equipas de investigação onde são reproduzidas, a uma escala muito pequena, e controladamente, as reacções de produção de energia que ocorrem no Sol. O Centro de Fusão Nuclear do Instituto Superior Técnico tem um “tokamak” de pequenas dimensões.
No “tokamak” reproduz-se a fusão nuclear, mas subsiste um insustentável problema de escala: é preciso gastar mais energia a provocar o fenómeno de fusão do que aquela que é libertada no fim do processo e, portanto, aproveitável, que é muito pouca. O processo tem validade a título experimental, mas ainda não é rentável. O maior “tokamak” do mundo é o Joint European Torus (JET): foi construído no Reino Unido, por vários países europeus e do qual Portugal é membro, e a ele acorrem as equipas para conduzir as suas experiências de fusão.
Carlos Varandas frisa que há 30 anos que se faz investigação nesta área em Portugal e que o Centro de Fusão Nuclear tem tido apoio dos sucessivos governos. “Todos me têm apoiado, penso que este Governo sabe que somos um laboratório associado, apesar de toda a gente gostar de ter mais dinheiro e mais pessoas para trabalhar.”
FONTE: Público


