Laboratório Português Estuda Mistérios dos Sorrisos 4 Novembro
Comments Off
Quem já não esboçou um sorriso amarelo? Ou um simples sorriso para mascarar uma tristeza? Armindo Freitas Magalhães, autor de um estudo comparativo sobre o efeito dos diferentes sorrisos na percepção da afectividade, chama-lhes sorrisos falsos, porque diz que se pode inferir efeitos psicológicos a partir da exibição de um certo tipo de sorriso.
Em 2003, Freitas Magalhães fundou o Laboratório da Expressão Facial da Emoção (FEELab), inserido no Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras, com o objectivo de estudar institucionalmente as expressões faciais no espectro das teorias da emoção. Desde então, têm ali sido realizados vários estudos em torno das emoções e do sorriso.
O psicólogo apresenta, assim, o sorriso falso como um esboço que aparece e desaparece rapidamente, exagerado, congelado, assimétrico, com expressões mistas e com defeitos de intensidade. “Nestas ocasiões verifica-se um defeito electromiográfico dos músculos, ou seja, as rugas que normalmente aparecem junto aos lábios e dos olhos não estão presentes.” Por outro lado, o sorriso verdadeiro ocasiona uma simetria no rosto, leva mais tempo para se instalar e mais tempo a desaparecer. “É a matriz da emoção alegria.”
“Quando tentamos mascarar uma emoção de tristeza, por exemplo, com um sorriso, a emoção que aparece nele não existe psicologicamente. Como os dois hemisférios cerebrais operam para as emoções positivas e para as emoções negativas, somos muito vulneráveis a ser detectados”, alertou Freitas Magalhães. O sorriso é um dos principais organizadores do psiquismo humano e uma fonte segura de recompensas pessoais e interpessoais, diz o psicólogo. Desde muito cedo que aprendemos que, pelo sorriso, conseguimos estabelecer o mecanismo da vinculação e, daí, tirar o benefício dessa aprendizagem. Depois, o sorriso deixa o seu carácter involuntário e passa a assumir a configuração voluntária e de dissimulação. “Nesta fase, aprendemos a dissimular as nossas emoções com a exibição do sorriso.”
Segundo o autor, existem três tipos de sorriso: o largo, quando os lábios deixam ver os dentes, o sorriso superior, em que apenas se mostram os dentes de cima, e o sorriso fechado, que esconde os dentes, sem alterar muito a fisionomia do rosto. De todos, este último parece ser o que melhor traduz a afectividade e é caracterizado por Freitas Magalhães como o “sorriso de sedução”. “O sorriso fechado é o tipo mais percepcionado como afectivo. Quanto mais as pessoas exibem o sorriso fechado – elevando as comissuras labiais para cima e para trás, não mostrando os dentes, sem significativas alterações musculares – mais afectivas são percepcionadas por quem as observa.” Mas o sorriso fechado tipifica também uma alegria moderada, enquanto o sorriso largo está mais próximo do riso e da alegria incontida. “Quanto mais largo for o sorriso, mais alegre estará a pessoa que o esboça.”
As diferenças entre sexos podem encontrar-se também no sorriso. As mulheres parecem usar mais o sorriso fechado do que os homens, daí que sejam vistas como mais afectivas. Têm um sorriso involuntário e esboçam-no, em grande medida, em situações de sedução. Segundo Freitas Magalhães, é exigido à mulher uma alegria permanente, o que esta parece já ter interiorizado, sorrindo espontaneamente. “A manifestação de sentimentos de afecto através do sorriso é mais frequente nas mulheres porque traduz a protecção e a necessidade de receber afeição.” Os homens, por outro lado, sorriem em sinal de dominação e de forma mais voluntária e estratégica. “O homem serve-se do sorriso como instrumento de exibição e de afirmação, e é mais racional do que sentimental.”
O sorriso é inato e, antes de aparecer no palco do rosto, aparece numa imagem mental. “Por isso, precisamos de ser coerentes com o nosso discurso cerebral que se traduz na face: o palco de toda a nossa visibilidade social.” Ele aparece muito cedo no rosto da criança, acentuando-se na vida reprodutiva e rareando na velhice. Ou seja, o sorriso, como a vida, nasce, desenvolve-se e morre.
O sorriso não é exclusivo do homem, porque sabe-se que o chimpanzé também sorri. “Mas é exclusivo do homem a capacidade de usar o sorriso em certos contextos e a intencionalidade com que sorrimos”, sublinha ainda Freitas Magalhães.
FONTE: Público


