Físicos Debatem Ficção Científica 9 Setembro

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Uma das primeiras histórias escritas de ficção científica conta que, na face iluminada da Lua, viviam apenas pessoas muito ricas, e que as pobres habitavam na parte escura. Foi com este exemplo que Antares Kleber, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, iniciou a palestra sobre “A Física dos Filmes de Ficção Científica”, no âmbito da segunda Escola de Astrofísica e Gravitação do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa. Os primeiros relatos, como este, eram tidos como histórias reais e não como ficção, sublinhou.


“Ficção científica é uma criação muito antiga”, explicou Kleber. Em 1727, Jonathan Swift escreveu no livro “As Viagens de Guliver” sobre duas pequenas luas em órbita de Marte. Essas luas foram, em 1750, usadas por Voltaire no livro “Micrômegas”, que conta a história de um gigante de Sírio em visita ao nosso sistema solar. Mas só 150 anos depois, em 1877, Asaph Hall descobriu finalmente Fobos e Deimos, as duas pequenas luas de Marte. “Este é mais um caso de ficção científica. Será que há extraterrestres que vieram à Terra para contar aos cientistas sobre os satélites antes de eles terem sido descobertos?”, brincou Kleber.



A ficção científica passou para o cinema em 1902, com o filme “Le Voyage dans la Lune”, de George Méliès. O filme, de 16 minutos, é baseado no livro de Jules Verne “Da Terra à Lua”, de 1865. “Este autor já tem em atenção a falta de gravidade no espaço, ao contrário dos realizadores de hoje”, frisou. O físico interroga-se, por isso, se hoje em dia não teremos já passado para a era da ficção tecnológica. “Os filmes actuais preocupam-se muito mais com o aparato tecnológico do que com a pureza científica”, afirma, reportando-se a filmes como “Armageddon”, de 1998, e “Supernova”, de 2000, que critica fortemente.


“No caso do ‘Armageddon’, quando os actores estão no meteorito, a gravidade só se faz ver quando lhes convém. Nunca se conseguiria perfurar um meteorito sem que os mecanismos fossem expelidos para o espaço.”


Noutra palestra, José Sande Lemos, do Centro de Astrofísica (CENTRA) do IST, falou sobre as máquinas do tempo: “Viagens ao futuro são cientificamente e teoricamente possíveis, mas tecnologicamente não o são.” Se o ser humano fizesse uma viagem para uma estrela próxima, ao regressar encontrar-se-ia no “futuro da Terra”. Trata-se do “paradoxo dos gémeos” da Teoria da Relatividade. Ou seja, “se Billy fosse lançado numa nave a uma velocidade de 80 por cento da velocidade da luz, enquanto para ele passavam dez anos, na Terra já teriam passado 20, e a sua irmã gémea seria dez anos mais velha que Billy”, explicou. É que no espaço o tempo corre mais devagar. “Mas era necessário que houvesse tecnologia que permitisse a construção de naves que viajassem à velocidade da luz.”


No entanto, as leis da física não permitem encontrar uma solução para viajar para o passado. “Em princípio, os físicos concordam – tal como eu – que as leis da física não o permitam. Envolveria muitos paradoxos.” Por exemplo, o “paradoxo do avô”: um viajante no tempo mata o seu avô antes que este deixe descendência; assim, o assassino deixaria de existir no seu próprio tempo. Então, como é que voltou atrás no tempo para matar o avô?


FONTE: Público

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