Cientistas Revelam Imagens do Fundo do Mar da Zona do Sismo de 1755 9 Julho
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Onde foi a origem do sismo de 1755, que destruiu Lisboa? Não há certezas absolutas, mas cientistas portugueses e estrangeiros acabam de fazer uma campanha a sudoeste do Cabo de São Vicente – no navio oceanográfico “D. Carlos I”, que chegou ontem à Base Naval do Alfeite – e as imagens obtidas do fundo do mar poderão ajudar a resolver o mistério. São espectaculares e mostram relevos e estruturas, algumas desconhecidas até agora, com bastante nitidez.
Estas imagens de elevada resolução da morfologia, ou batimetria, do fundo do mar, apresentadas numa conferência de imprensa a bordo do “D. Carlos I”, foram possíveis graças a um novo equipamento instalado no navio – um sistema sondador multifeixe. Nestes levantamentos, o navio traçou linhas paralelas ao longo das quais mediu as profundidades usando impulsos acústicos.
Ao invés dos sondadores de feixe simples – que só emitem impulsos na vertical e, por isso, não permitem determinar estruturas entre duas linhas – o novo equipamento mede profundidades em várias faixas adjacentes. Assim, é possível garantir a cobertura de todo o fundo do mar, pois faz-se o varrimento de uma fatia com largura máxima de 15 quilómetros. Esta foi a primeira missão científica do “D. Carlos I” em que o sondador multifeixe foi usado. É o único equipamento destes em Portugal, dotando os cientistas de meios equiparados a outros países. Por isso, cientistas e responsáveis da Marinha estavam contentes. Algumas zonas nunca tinham sido cartografadas com umsondador multifeixe e houve surpresas.
“As emoções que sentimos com estas imagens assemelham-se às dos cientistas que observaram pela primeira vez a face oculta da Lua”, dizia o geofísico Luís Matias, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Também o geólogo Pedro Terrinha, da mesma faculdade, estava maravilhado. “É admirável como a fisiografia dos vales submarinos é semelhante à dos vales emersos”, afirmava, ao mesmo tempo que mostrava imagens de um vale quase plano e do que fica à sua cabeceira, os canhões submarinos (sulcos profundos) de São Vicente, de Lagos e Portimão. “Parecem rios, mas estão a quatro mil metros de profundidade.”
Aquela zona foi escolhida por razões fáceis de explicar. As margens sul e sudoeste de Portugal Continental estão sujeitas a forte actividade sísmica, e foi por aí que se gerou o sismo de 1 de Novembro de 1755, um dos maiores de que há memória. É naquelas margens continentais, sublinhava Pedro Terrinha, que se gera a maioria dos sismos que afectam Portugal e Espanha. Isto porque ali fica a fronteira entre duas placas tectónicas, a africana e a euroasiática, que estão em colisão. “A complexidade aqui é de tal ordem. Mas gostaria que a fronteira ainda se encontrasse na minha vida profissional “, dizia o geofísico Luís Mendes Victor, presidente do Instituto de Ciências da Terra e do Espaço, em Lisboa, e o coordenador do projecto Tectónicos e Dinâmica Sedimentar nas Margens Portuguesas, onde se inseriu a campanha do “D. Carlos I”. Entre as imagens há uma da escarpa da Falha da Ferradura, com 100 quilómetros de extensão, e a equipa, de que faz parte o geólogo António Ribeiro, da Faculdade de Ciências de Lisboa, pensa poder ter a ver com o sismo de 1755.
Nos anos 90, cientistas italianos descobriram uma falha, baptizada Marquês de Pombal, que consideraram ser a fonte possível do sismo de 1755. A descoberta refutava a ideia de que a falha responsável ficava no Banco de Gorringe, a sudoeste do cabo de São Vicente e a 350 quilómetros de Lisboa, por ser a maior estrutura morfológica da região. Com cerca de 100 quilómetros, o Gorringe fica a 26 metros de profundidade, numa zona que desce a mais de cinco mil metros. Mas a descoberta da Falha Marquês de Pombal pôs o epicentro do sismo mais próximo da costa, a 100 quilómetros a Oeste do cabo São Vicente. Mas a extensão desta falha, com 60 quilómetros, é insuficiente para gerar a energia do sismo de 1755 – por isso, os investigadores pensam que o terramoto está associado à Falha Marquês de Pombal em conjugação com outra estrutura na vizinhança, e a Falha da Ferradura é um dos candidatos. “Com estes dados vamos esclarecer melhor a questão”, dizia Luís Matias, explicando que à superfície as duas falhas estão separadas, mas em profundidade até podem ser o mesmo acidente tectónico. “Para a génese do sismo de 1755, esta campanha foi importante”, rematava António Ribeiro.
FONTE: Público


