Cientistas Aconselham Prudência Quanto às Mudanças na Divulgação Científica 15 Maio

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As reacções ao novo programa para divulgar a ciência em Portugal, que põem a Agência Ciência Viva a concorrer a verbas em pé de igualdade com outras instituições, são cautelosas, até por que ainda não há muitos pormenores sobre como tudo irá funcionar. Os investigadores ouvidos pelo PÚBLICO esperam que a medida anunciada anteontem pelo secretário de Estado da Ciência, Jorge Moreira da Silva, não destrua o Ciência Viva e sublinham a importância deste na divulgação científica em Portugal.



João Sentieiro, director do Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico, e um dos representantes do Conselho de Laboratórios Associados, é o mais crítico de todos. “O objectivo é claramente estrangular o Ciência Viva. Dói ver tudo o que de bem se fez nos últimos anos estar a ser delapidado com esta falta de sentido de responsabilidade. É lamentável”, comentou. “Parece uma reacção infantil de destruir tudo o que foi feito sem olhar a se foi bem feito. O país é que vai sofrer. É uma pena que não se tenha maturidade para entender que não se pode actuar desta maneira.”


Nos últimos dois anos, a Agência Ciência Viva viu o orçamento drasticamente cortado. A sua directora, Rosália Vargas, referia ontem outras dificuldades dos últimos tempos: “Do orçamento deste ano – 10 milhões de euros -, só recebemos 400 mil euros.” Também desde 2001 que não abre o concurso nacional para as escolas, que concorriam com milhares de projectos para o ensino experimental das ciências. “Não tem havido concurso por falta de apoio financeiro. Ainda há milhares de projectos activos nas escolas, dos concursos anteriores, mas os professores estão a adiar o fechar dos projectos até à abertura do novo concurso.”


Mesmo que não haja dinheiro para o programa de ocupação científica de jovens em laboratórios de investigação, outra das actividades promovidas pela Ciência Viva, os laboratórios associados já decidiram continuar a receber os alunos no Verão, informou João Sentieiro. “Vamos continuar a participar, porque são iniciativas demasiado importantes para o país para estarem dependentes dos humores dos nossos governantes.”


O Ministério da Ciência anunciou que a divulgação científica passará a fazer-se segundo um novo modelo. Será criada uma comissão de cientistas, com a tarefa de avaliar os projectos apresentados por universidades e instituições, públicas ou privadas, e pela própria Ciência Viva. Esta passa a concorrer às verbas destinadas à divulgação científica, em pé de igualdade com outras instituições, para que, nas palavras de Moreira da Silva, a agência deixe de ter o “monopólio”. As verbas para o programa de divulgação científica são no valor de 22 milhões de euros, a dividir desde o segundo semestre de 2004 até 2006. Por ora, Moreira da Silva não quer adiantar pormenores sobre o novo programa. No dia do anúncio, Moreira da Silva considerou que a escassez de verbas da Ciência Viva é da responsabilidade da própria agência e do seu modo de funcionamento, que terá provocado o bloqueio de fundos da Comissão Europeia, em Julho de 2003. Aludia a uma auditoria, em Fevereiro de 2003, sobre a gestão do Programa Operacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (POCTI), que criticava o facto de a Ciência Viva também participar na gestão desses fundos. Ou seja, actuava como intermediário mas também como beneficiário final. A partir de agora, a Ciência Viva deixa de gerir as verbas do POCTI para a divulgação científica.


Ontem, Rosália Vargas mostrou-se surpreendida com o anúncio de Moreira da Silva. “Estou muito surpreendida, diria mesmo chocada. Há poucos dias, falei pessoalmente com o senhor secretário de Estado da Ciência, que reafirmou o apoio ao Ciência Viva”, disse. “Ao longo destes anos, as despesas de funcionamento do Ciência Viva situa-se na ordem dos 14 a 15 por cento do orçamento. A maior fatia do orçamento, 86 a 87 por cento, é para as instituições científicas, universidades, associações e escolas que promovem a divulgação científica.” Em relação ao monopólio, mencionou ainda: “Não percebo essa referência de a Agência Ciência Viva perder o monopólio. Não tem o monopólio! São as instituições que levam a cabo acções de divulgação científica. A Ciência Viva promove algumas acções directamente, mas sobretudo estimula-as.”


Alexandre Quintanilha, director do Instituto de Biologia Molecular e Celular, no Porto, e um dos 11 associados da Agência Ciência Viva, não vê com maus olhos a medida. “Não acho mal que seja aberta a outras pessoas que queiram também fazer coisas. Mas não queria que se pusesse em risco uma estrutura que deu muito trabalho a montar e tem dado provas excelentes”, disse. “O Ciência Viva é uma ideia extremamente original, que está a ser imitada em vários países europeus. Tem tido uma visibilidade muito grande fora do país mas, mais importante, é o impacto que teve dentro do país. Tem sido qualquer coisa de extraordinário, que mudou a maneira como se olha para a ciência em Portugal.” Quintanilha não deixa, assim, de referir eventuais problemas. “O receio que tenho é que isto possa reverter numa multiplicidade de esforços menos coordenados, com as consequências de um mecanismo um bocadinho ‘ad-hoc’.”


Arsélio Pato de Carvalho, director do Centro de Neurociências de Coimbra, outro dos associados da Agência Ciência Viva, tem um pouco a mesma opinião. Diz que há espaço para outros promoverem a ciência, embora mencione os riscos: “É indubitável que a Ciência Viva tem promovido a cultura científica. Corre-se o risco de uma fragilizar uma coisa que funciona bem.”


FONTE: Público

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